This is the portuguese translation of my essay on Gregory Bateson's notion of the Sacred which will appear in the next issue of the Brazilian journal "Thot" (which will be in the Brazilian bookstores in October 99).

You can check out 'Thot' at the following site- http://www.palasathena.org/


A Noção do Sagrado em Gregory Bateson
(O que ela nos pode dizer sobre uma vida construtiva?)

Vincent Kenny

 

1. A preocupação e o sagrado

Na verdade, Gregory Bateson não nos fala diretamente sobre o sagrado, o que aliás é uma forma de indicar o que ele é: algo que está além das descrições fáceis. O sagrado faz parte do indizível da experiência humana e deve permanecer assim. Quando Bateson diz que mente e consciência não podem se encontrar – que há um fosso necessário entre as duas –, quer expressar que nossas tentativas de explicar a experiência humana são sempre e inevitavelmente incompletas e que há mais na vida e na mente do que a consciência pode alcançar:

Mas os pedaços e migalhas da mente que surgem na consciência proporcionam sempre um quadro falso de sua totalidade. O caráter sistêmico da mente nunca é descrito, porque a amostragem é orientada pelo utilitarismo.

A consciência jamais vê que a mente é como um ecossistema – uma rede auto-regulável de circuitos. Percebemos apenas arcos desses circuitos. A vulgaridade instintiva dos cientistas consiste em confundir esses arcos com a verdade maior, isto é, pensar que, porque aquilo que é percebido pela consciência tem um dado caráter, a totalidade da mente deve tê-lo também.

O ego, o id e o superego personificados por Freud, na verdade não o são. Cada um desses componentes é construído apenas à imagem da consciência, embora possam ser inconscientes. A consciência não se assemelha à pessoa total. A consciência isolada é necessariamente despersonificada.

A totalidade do iceberg não tem as características que podem ser inferidas olhando para a parte dele que está acima da linha d’água. Com isso, quero dizer que a mente não é como um iceberg. (Bateson, 1967)

1.1. Nossa responsabilidade pessoal diante do sagrado

O modo como os seres humanos têm lidado com essa característica inevitavelmente autolimitante de sua existência incluiu a evolução das religiões como formas de trabalhar essa separação. Tudo isso leva ao reconhecimento da impossibilidade de superar a lacuna de nossa percepção dividida, o que resulta na total delegação de nossas responsabilidades de vivê-la a seitas ou classes de pessoas – os padres, os druidas, os gurus etc. Tal delegação não pode ser aprovada pelo construtivismo.

Leiamos Bateson outra vez:

Ocorre que, mesmo antes da moderna tecnologia, algo tinha de ser feito a respeito da divisão inata entre a consciência e o resto da mente. A consciência deixada à sua própria sorte sempre arruína as relações humanas. A consciência não-ajudada deve combinar a sabedoria da pomba com a inofensividade da serpente.

Vou dizer-lhes o que era feito na Idade da Pedra, para lidar com essa divisão.

Religião – eis o que se fazia.

É tão simples assim. A religião era tudo o que se podia inventar para mostrar ao homem que a maior parte dele (e, analogamente, a maior parte da sociedade e do ecossistema que o rodeavam) era de natureza sistêmica e imperceptível por sua consciência.

Isso incluía os sonhos e os transes, as intoxicações, a castração, os rituais, os sacrifícios humanos, os mitos de todas as espécies, as invocações da morte, a arte, a poesia, a música e assim por diante.

É evidente que as pessoas daquela época não diziam, nem podiam dizer ou saber com clareza, o que estavam fazendo ou por que o faziam. Além disso, com freqüência não havia resultados.

1.2. A tarefa impossível da humanidade 

Para vivenciar inteiramente a nossa humanidade, devemos resistir à tentação de delegar a alguém ou a algo nossa responsabilidade pessoal de viver a distância entre nossas experiências e nossas tentativas reducionistas de explicá-las com uma linguagem de objetivos conscientes.

No entanto, continuar a aceitar a responsabilidade por esse esforço impossível é a marca de um esforço ético. Eis o que Wittgenstein diz a esse respeito: 

Estou propenso a acreditar que a tendência de todos os homens que têm tentado escrever ou falar sobre ética ou religião foi investir sobre os limites da linguagem. Essas investidas contra as paredes de nossa jaula é perfeita e absolutamente sem esperança. Na medida em que emerge do desejo de dizer algo sobre o significado básico da vida, o absolutamente bom, o absolutamente precioso, a ética não pode ser uma ciência. Mas documenta uma tendência da mente humana, que pessoalmente não posso deixar de respeitar muito e que não ridicularizaria. (1929)

Nessa citação podemos ver, por um lado, a questão central do construtivismo. Por outro, sabemos que qualquer significado que construirmos permanecerá como uma propriedade subjetiva nossa. Por isso, um significado jamais chega a descrever um estado real de coisas. De outra parte, porém, podemos e devemos transcender o conhecimento que inventamos, dos seguintes modos:

O desejo de fazer esse esforço impossível é um sintoma da presença do sagrado: é o esforço para ir além do aprisionamento da linguagem e alcançar o incognoscível, o indizível sentido de uma consciência maior.

1.3. Responsabilidade versus dependência

George Kelly insistiu em nossa capacidade de aceitar a responsabilidade total pelos dilemas pessoais. Ela reúne as melhores características da espécie humana. É o contrário da fuga à responsabilidade de falar sobre "circunstâncias além do nosso controle" — frase que ouvimos muito hoje em dia. Esse autor se expressa assim:

Mesmo Deus – a mais poderosa de todas as circunstâncias – é hoje considerado morto. Tal afirmativa não é obviamente ateísta, nem mesmo agnóstica. De um modo geral, ela admite a criação de circunstâncias e não nega a sua importância histórica, embora num sentido teológico peculiar seja uma devastadora declaração de independência por parte dos homens preparados para aceitar a responsabilidade por seus atos, e que deixam de reconhecer o poder direcionador de quaisquer circunstâncias, mesmo a maior delas – o próprio Deus. (Kelly, 1969)

A história do Jardim do Éden, tal como lida por Kelly, diz que Deus jogou fora a sua invenção humana, quando os seres humanos optaram por conhecer em vez de obedecer. Bateson a interpreta dizendo que foram os homens que expulsaram Deus desse jardim, ao exaltar o utilitarismo consciente em prejuízo da consciência sistêmica.

As duas leituras podem ser usadas para dizer-nos algo sobre a responsabilidade humana. Na primeira, porque Deus está morto e somos os únicos responsáveis pelo modo como construímos o mundo. Na segunda, porque é presunçoso jogar fora o bebê divino junto com a água do banho ecológico e sistêmico, reduzindo assim a percepção humana à mera consciência utilitária – e aqui de novo somos responsáveis pela escolha.

Dizendo de outra maneira, somos responsáveis pelos modos como construímos o mundo (e esse é o nosso empreendimento), e também pelas formas como construímos a nós mesmos como seres humanos. É nossa tarefa tornarmo-nos humanos-com-preocupação-total, em vez de continuar sendo humanos-com-consciência utilitária. Não temos nenhuma "natureza": temos apenas a natureza que geramos em nossas relações sociais.

No contexto dessas leituras, podemos dizer que a abordagem construtivista vê a religião como uma convenção social utilizada pelas pessoas para tentar voltar ao Éden. Lá, tudo o que é preciso é obedecer ao líder. Ao prestar essa obediência, acabamos não conhecendo o mundo de forma responsável. É um caminho que nos afasta do sagrado, porque se baseia na submersão da percepção pessoal em regras ideológicas.

O principal modo de "não saber" é seguir cegamente regras inventadas por outros.

Como diz Kelly,

As regras são bastante úteis como corrimãos para a moralidade míope, e isso naturalmente inclui a maioria de nós. Mas... o homem que voluntariamente confia em regras e leis, que em seu nome distinguem o bem e o mal, está apenas querendo evitar a antevisão daquilo em que, no fim, o bem e o mal se tornarão. No futuro, não será muito confortável para ele verificar que confundiu as coisas, lembrar-se de que fechou os olhos e conformou-se com as regras. (Kelly, 1969)

Os comentários acima realçam o valor construtivista do "homem que fez a si mesmo" ou o da "pessoa autoconstruída" e inserida em uma determinada rede de conversações. Uma das muitas responsabilidades que parecemos relutar em assumir é a de como inventamos os indivíduos em nossa sociedade – de como geramos os componentes humanos de uma sociedade cada vez mais desumana.

2. A limitada conveniência da ficção do "self 1 individual"

O "self individual" é uma ficção ocidental conveniente. Não existe fora das tradições do Ocidente. No mundo ocidental, os homens são vistos como entidades inteiramente separadas. Mas cada pessoa sabe, depois de refletir um pouco, que esse simplesmente não é o caso: para existir, todos dependem de redes específicas de relações.

Acho que foi Harry Stack Sullivan quem criticou a Igreja católica, por querer passar para as pessoas a falsa idéia de que elas tinham "livre arbítrio" para fazer o que quisessem. Quando essas pessoas deixam de exercer esse arbítrio, deixam de "fazer a coisa certa" e se sentem angustiadas por causa disso, a mesma Igreja lhes vende "absolvição" por seu sentimento de culpa. É um pouco como as atuais práticas comerciais, que impõem às pessoas a crença de que elas precisam de algum objeto de consumo (ou precisam ser algo que não são), e depois oferecem justamente o produto que removerá o sentimento de inferioridade por não possuir o produto certo.

Não deve ser surpresa que a posse eventual do novo carro, TV, casa etc. pouco faz para resolver o sentimento de inadequação anteriormente instilado. A máquina publicidade-consumidor gera as mesmas ansiedades, para as quais propõe suas "soluções" comerciais. Sob esse ponto de vista lembro também a psicanálise, que é tida por alguns como a própria doença que alega curar.

David Smail assinala que 

A pessoa não é uma entidade circunscrita e separada do mundo em que existe, mas sim uma interação corpo-mundo que engloba ambos. As pessoas não podem controlar suas crenças e atitudes porque elas são suas crenças e atitudes. Estas, bem como os sistemas não-verbais de significado e as metáforas – que ordenam a experiência –, são constituintes de nossa condição pessoal. Não existe uma pessoa "adicional", que possa de algum modo sair de seu interior, ajustá-lo a partir de fora e depois voltar a ele.

O que parece ser o nosso "interior" é o que os psicólogos freqüentemente chamam de self, "espaço interno" etc. Mas ele não existe no sentido material, nem no imaterial. Na verdade, é uma forma de nos referirmos à nossa autoconsciência. O que faz diferença para o nosso modo de ser, o que nos modifica ou permite que mudemos, não é a manipulação voluntária de recursos internos, porque não existe tal "interior". O que faz essa diferença é a influência de poderes e forças externas ou o acesso a eles. Nem o self nem o mundo podem ser influenciados por nada senão o exercício do poder. (Smail, 1993, pp. 82-83)

Agora ilustremos o tema do "self ficcional" com algumas citações da perspectiva budista:

O budismo ensina que não existe nenhuma entidade estável tal como o self. O self é como o presente. Como o presente se dissolve no passado e o futuro se presentifica, num dado momento não existe nenhuma entidade fixa que possa ser identificada como "presente". A atividade de criação do presente é incessante. Podemos entender o self da mesma maneira. Não se trata de algo constante. Ele se origina da atividade limitante do absoluto. Apegar-se ao self é na verdade impossível, porque ele não tem uma natureza fixa. Portanto, tentar satisfazer os seus desejos é também impossível. Uma cultura baseada em proporcionar essa satisfação não pode sem bem sucedida. O que é necessário é a sabedoria de compreender o self além dos apegos, e criar uma cultura que tenha essa sabedoria por base. (Roshi, 1983)

E também:

A maioria de nossas terapias é orientada por uma teoria da personalidade. Além disso, a maioria de nós em geral acha que devemos saber quem somos. Afinal, parece que os outros andam por aí sabendo quem são. Contudo, se olhamos para dentro de nós mesmos e não encontramos nada em que possamos nos agarrar, ficamos com medo. Não nos damos conta de que ninguém realmente sabe quem é. Não percebemos que essa é a natureza do nosso ser. Não entendemos que, se afinal temos um verdadeiro self, ele deve estar nas profundezas do desconhecimento, com o qual nos defrontamos quando começamos a olhar para o nosso interior. E, se podemos "pendurar-nos" na borda desse desconhecimento, podemos também descobrir como fazer para deixar a nós próprios em paz, sem a obrigação de ser algo. (Welwood, 1983)

Neste ponto, quero sublinhar a frase que diz que a verdade da individualidade repousa "nas profundezas do desconhecimento, com o qual nos defrontamos quando começamos a olhar para o nosso interior". Trata-se da própria incognoscibilidade, da luta impossível com os limites da linguagem, que gera o sentimento constante de uma individualidade ética.

Mais uma vez, temos o forte sentimento de que "ser alguém em particular" é uma noção perigosa, cheia de oportunidades para experienciar emoções autodestrutivas. E será que temos outras opções, a não ser empurrar esse "alguém" para além da borda de sua suposta posição em um espaço humano de conversações?

2.1. O self é aquilo que surge quando um corpo humano ocupa uma posição nodal numa rede fechada de conversações

O self individual não tem existência independente. O que há são muitos deles, diluídos em uma longa rede de histórias culturais e interpessoais.

Verden-Zöller observa que 

Um self é uma dimensão social, que adquire existência por meio de um determinado corpo, isto é, de uma determinada corporeidade. É como um nó onde se encontram as conversações de uma comunidade humana de aceitação mútua. A criança, portanto, deve adquirir sua auto-identidade a partir de um modo particular de ser em sua corporeidade. E faz isso vivendo em uma comunidade humana de aceitação mútua.

Esse processo normalmente ocorre quando a criança cresce em interações corporais estreitas com sua mãe e também com outras crianças e adultos, num processo por meio do qual todos eles, de modo natural e sem intenção ou esforço, participam para que ela se desenvolva com dons naturais, percepção corporal, autoconsciência e consciência social. Na verdade, estamos tão acostumados à normalidade desse desenvolvimento infantil que não percebemos o âmbito das relações humanas no qual ele ocorre como processo natural. Quando tal não acontece, não sabemos o que falhou nem o que fazer, e então recorremos ao controle. Além disso, quando tentamos corrigir uma insuficiência básica de relações humanas em uma criança por meio do controle, o que geralmente obtemos é mais insuficiência, porque, em nossa cegueira em relação ao presente e com os olhos postos no futuro, negamos essa criança.

De um modo geral, somos cegos para esse domínio contextualizante de relações humanas complexas, no qual se dá a evolução do sentimento infantil de:

Self Freccia_rossa.gif (101 bytes) Corpo  Freccia_rossa.gif (101 bytes) Nó de Comunicação Freccia_rossa.gif (101 bytes) Espaço de Conversação Freccia_rossa.gif (101 bytes) Self

Em outras palavras, somos unânimes em perceber a criança como "uma entidade separada" da estrutura familiar. Tendemos a ser cegos diante de sua existência dentro de um contexto de coordenações interpessoais de emoções. Quando a criança desenvolve problemas emocionais, continuamos alheios ao fato de que estes não podem existir dentro dela: só podem ocorrer como uma maneira sua de expressar o complexo contexto de relações no qual ela foi colocada, por meio der seu corpo. Desse modo os terapeutas tentam curar o "problema da criança", embora o único problema dela seja o de ter sido inserida em uma rede insalubre de relacionamentos.

É desnecessário dizer que essas tentativas de "cura" são esforços mal disfarçados de fazer com que a criança caiba nesse sistema insalubre – tomando por certo que ele funciona. No entanto, mesmo quando alguém percebe que existe um sistema, em geral ele não é visto. Mais cedo ou mais tarde, se a criança tiver sorte, alguém perceberá que existe uma rede familiar, e que ela nem sempre é um meio maravilhoso para apoiar uma criança em crescimento. Nesse ponto, a criança não poderá ser vista como se fosse independente desse complexo contexto de inter-relações humanas. A ausência de percepção da criança em seu contexto geralmente leva a mais fracassos, porque ela é negada: tenta-se negá-la pela manipulação dos resultados, procurando fazer com que ela se adapte.

Segundo Maturana, nossas ações não são determinadas por nossa estrutura. Num dado momento, os estados de nossa corporeidade são o resultado da história de nossa vivência daquele momento. Isso significa que só podemos agir dentro do contexto das possibilidades oferecidas ou implicadas por nossas estruturas corporais. Estas dependem da história das interações estruturais que vivemos com os outros. Ao crescer, a criança se torna o ser humano resultante da história de suas interações com sua mãe e outras pessoas e, principalmente, do modo com seu corpo é transformado por meio dessas suas interações.

Tudo isso significa que a história de nossas interações – especialmente com nossas mães – gera, com o tempo, a gama de ações das quais podemos participar. Nossa estrutura corporal contém, em estado latente, atividades viáveis. O corpo contém a gama das interações que podemos exercer.

Essa gama determina como e para o quê seremos orientados em nossa vida, momento a momento. Ela nos diz o que devemos esperar e como interagir com o que vier, quando chegar a hora. Tornamo-nos cegos para todos os outros modos de interação. Assim, a partir de nossas experiências com nossas mães, somos especificamente orientados para determinados modos de relacionamento com nós próprios e com os outros. Estes tornam-se os limites do nosso crescimento e experiência.

2.2. A pretensa individualidade

O que foi dito acima torna claro que o "self individual" é o que vive sua individualidade apenas dentro de uma matriz de atribuições compartilhadas, garantidas por suas coordenações de emoções.

Esse self é continuamente confrontado com a necessidade de imaginar que é "independente" e de comportar-se como se isso fosse verdadeiro. Mas ao mesmo tempo ele se submete, pois é um componente dócil da rede que o faz existir como um indivíduo. O modo como o self é configurado nessa rede obscurece a presença do sagrado.

Em vez de se preparar para estar em contato com o sagrado, as pessoas são continuamente convidadas a resolver a impossibilidade da identidade individual. Para tanto, diluem o seu self na segurança de algumas formas religiosas ou pseudo-religiosas, ou nas "subculturas" comuns na adolescência, nas quais o uso de roupas com a etiqueta "certa" é o poder distintivo supremo.

Como a Itália hoje tem um dos menores índices de natalidade do mundo, sua cultura está mudando rapidamente para uma média de menos de um filho por família. Na verdade, a própria noção de "família" está se tornando problemática, porque agora há poucas pessoas disponíveis para assumir as diferentes posições no espaço familiar de conversações. Assim, perde-se com facilidade o sentimento de ciclo de vida em família.

Em outros países ainda é possível viver nesse ciclo, no qual num dado momento há pessoas "populando" os diferentes estágios da vida. Assim, vemos as crianças com seus irmãos e irmãs mais velhos e com seus pais, que por sua vez podem ser vistos com seus próprios pais, na família ampliada. Depois vem a aposentadoria e finalmente as pessoas se aproximam do término de seus ciclos vitais. Tudo isso junto compõe um ciclo sistêmico.

A importância desse sistema era, naturalmente, a vida em comum numa ecologia familiar evolutiva, na qual havia sempre alguém para ajudar positivamente na descoberta das experiências do próximo estágio do desenvolvimento humano. A perda dessa forma de ecologia teve sérias implicações para os seres humanos e para o seu desenvolvimento ao longo da vida. Em outras palavras, existe hoje um profundo sentimento de perda das compreensões vividas e geradas pelo modelo familiar.

2.2.1. Os si-mesmos destrutivos

2.2.2. Ao comentar a escalada do consumismo na Inglaterra, David Smail escreve:

O ciclo de vida de uma pessoa torna-se, cada vez mais obviamente, mais marcado pelas implicações do mercado do que pela significação social e espiritual de seus eventos. Do berço ao caixão, os estágios da vida tiram seu significado mais do típico modelo de consumista do que daquilo que Ivan Illich chamou de ‘"convivialidade".

Do mesmo modo que o ciclo anual é marcado por uma série de celebrações e consumo – aniversários, férias, Natal etc. – o curso de nossas vidas vem tendendo a ser cada vez mais claramente demarcado pelas orgias de gastos do que por sua significação como ritos sociais de passagem. A preocupação infantil com os brinquedos é um exemplo disso. No entanto, quando têm oportunidade de falar com os adultos ao seu redor, a maioria das crianças é razoavelmente indiferente aos brinquedos.

Contudo, num mundo em que os próprios adultos estão comprometidos com a visão mercantil, as crianças têm menos oportunidades de socialização do que de aprendizagem das artes do consumismo, em seu universo de brinquedos especialmente preparados. A partir do momento em que seus olhos podem focalizar algo, elas não apenas são instruídas sobre a aquisição e a rápida obsolescência dos bens de consumo, como também são inseridas em um mundo de faz-de-conta. Este oferece oportunidades de mercado virtualmente ilimitadas, e tende a afastá-las de qualquer ligação comercialmente indesejável com as realidades da existência social. (1993, p. 118)

Um forte sintoma dessa perda de senso do ciclo de vida familiar é a nossa incapacidade de estar com as crianças. Estamos sempre fora, no trabalho; ou muito ocupados; ou demasiadamente estressados e cansados; ou entediados demais; e assim por diante. Nos últimos anos, especialmente nos EUA, ouvimos falar de pais que ficam com seus filhos em "tempo qualitativo". Isso supostamente significa que é correto não ficar muito com as crianças, se durante o tempo que passarmos com elas estivermos "realmente presentes". No texto acima, falamos sobre a importância de estar com nossos filhos no presente.

Além de se tratar de uma desculpa muito frágil, a noção de "tempo qualitativo" é também a descrição de um cenário mais inverossímil: as pessoas estão tão mergulhadas na atividade frenética da sociedade de consumo que se tornaram obrigadas a produzir bens para essa sociedade. A situação chegou a tal ponto que é bastante improvável que elas possam simplesmente "desligar-se", isto é, parar com o "modo de produção", só porque está na hora de ir para casa e ficar com os filhos.

O esforço para gerar um "tempo qualitativo" de relacionamento com os filhos produz um espaço superprogramado, que tem de preencher critérios de "qualidade". Talvez a curto prazo vejamos esses pais em busca de consultores, para que estes os enquadrem num "padrão de qualidade" em relação ao alto nível de "atenção qualitativa" que devem dar aos seus filhos – no pouco tempo que passam com eles.

É óbvio que aqui a intenção consciente é "fazer horas extras", e que esses pais devem estar concentrados na produção do tipo certo de coisa — a qualidade. Num contexto como esse, não vejo muito espaço para relações espontâneas de interação.

2.3. Fingir que as pessoas são "coisas"

Um corolário da atitude de ver uma pessoa como se ela fosse uma entidade separada é ver a si próprio e aos outros como "coisas", em vez de processos envolvidos em relacionamentos contínuos. Para Kelly, uma pessoa é uma forma de processo. Ver a própria corporeidade como um "objeto" facilita a manipulação do corpo e dos outros como corpos. Os corpos se tornam então coisas para mover, possuir, desfrutar, ajustar, descartar, permutar, abusar, ignorar, explorar, controlar e assim por diante. Tudo isso leva com freqüência à automanipulação, bem como à manipulação dos outros.

Uma das formas mais crescentes de manipulação é a enorme popularidade da cirurgia plástica, que visa esculpir em corpos insatisfatórios formas mais desejáveis. Para tanto tiram-se pedaços aqui e ali, e recheiam-se com eles pontos estratégicos do corpo. Maridos manipuladores, que estimulam suas esposas "não-perfeitas" a manipular a si próprias pelas plásticas, freqüentemente buscam um "modelo mais novo" do que o "antigo". E assim essa cirurgia é, sob esse ponto de vista, um fracasso manipulativo, mesmo quando parece ser um sucesso do ponto de vista material.

Kelly ilustra o problema da manipulação ao descrever a aparente eficácia dessa abordagem, que Bateson condenou como "propósito consciente". Ela é capaz de disfarçar os problemas humanos, ocultando-os debaixo de sua superfície brilhante, pomposa e vulgar:

Dito de um modo simples, o determinismo científico é a crença de que um acontecimento deve levar a outro. Ponha o seu dedo num evento e estará a caminho de predizer e controlar o que se segue. Quando aplicada aos assuntos humanos, essa idéia significa que procuramos ver quais antecedentes são necessários e suficientes para fazê-los previsíveis. Quase não preciso assinalar que essa é uma abordagem estritamente manipuladora das relações humanas.

Nada nos autoriza a tentar entender uma criança com o pressuposto de que todas as vezes que lhe dermos um doce ela fará exatamente o que imaginamos. Se cada vez que compra algo para sua esposa ela o acaricia e lhe prepara uma ceia extra, o que mais você poderia querer saber a respeito dela? Se cada vez que faz um empréstimo a um país da América Latina ele vota a seu favor nas Nações Unidas, quem poderá dizer que você não entende os latino-americanos? Eis o que geralmente funciona.

Mas será que funciona bem? Amiúde ouvimos falar de homens que parecem lidar adequadamente com seus empregados, mas queixam-se de que não são realmente queridos em casa. Tudo o que suas famílias esperam deles é apoio financeiro. Seus filhos esperam doces, e concordam entre si que tudo o que precisam fazer para agradar aos velhotes é evitar cruzar com eles. Suas esposas esperam presentes em vez de compreensão. Descobriram que tudo o que têm a fazer é preparar suas refeições favoritas e acariciar suas nucas com as pontas dos dedos, enquanto pensam em alguma história romântica do Ladies Home Journal.

Enquanto toda essa psicologia cientificamente válida é praticada em casa, possivelmente maridos e esposas já freqüentaram psicoterapeutas por algum tempo, e as crianças provavelmente foram postas em alguma boa escola, escolhida por uma equipe de consultores. (Kelly)

A alternativa de Kelly para toda essa manipulação é compreender não apenas o comportamento dos outros, mas também os construtos2 pessoais que os incitam a pô-los em prática como as melhores opções disponíveis. Isso significa entender os construtos dos outros, e não apenas interpretar e categorizar suas ações. É esse esforço para dar sentido aos modos como os outros dão sentido às suas vidas que está no coração da psicologia construtivista

O mundo de hoje desenvolveu, num nível extremamente perigoso, a indústria do corpo humano como um objeto de desejo a ser comprado e vendido. É comum ver a facilidade com que os jovens se matam – na escola, na vizinhança e assim por diante. Na Itália, estamos acostumados a ver notícias de recém-nascidos descartados em latas de lixo, ou simplesmente jogados em becos. O ano de 1997 testemunhou a descoberta de círculos de pedófilos na Europa, com conexões em todo o mundo. Viu também o tráfico, do Oriente para a Europa e os EUA, de crianças vendidas para serem escravizadas, abusadas, torturadas e finalmente mortas. Também sabemos do uso de crianças como fonte de órgãos, a serem vendidos no mercado negro médico para transplantes cirúrgicos.

Em agosto último, os jornais italianos publicaram a fotografia de uma cena de praia, perto de Trieste, no norte do país. Nela aparecem banhistas nas poses costumeiras: tomando sol, deitados na areia, passando bronzeador nos corpos aquecidos, fazendo lanches de frutas ou sanduíches, bebendo água, mergulhando e assim por diante. Tudo muito típico de uma praia no verão. Havia, porém, um detalhe que fez dessa fotografia notícia – um cadáver jazia na areia. Era o corpo de um homem afogado, trazido há pouco pelos guarda-vidas. Nada disso abalou o prazer e a normalidade com que as pessoas desfrutavam a praia, a poucos centímetros do morto – como se ele nada fosse, ou como se fosse um mero objeto inerte.

Os jornais usaram esse fato para denunciar a total ausência de "sentimentos humanos" ou de "decência" entre os banhistas, que não mostraram nenhum interesse na pessoa morta nem revelaram quaisquer sinais de restringir seu próprio prazer. O que isso pode significar? Que os valores sociais da vida humana (a vida dos outros, é claro, não a minha!) se reduziram apenas aos que podem ser manipulados em nosso próprio interesse? Que a vida humana em si não tem nenhum valor? Que estamos tão acostumados a ver os outros como objetos para nossa própria disponibilidade, que acabamos perdendo de vista o que antes era uma empatia normal, ou um interesse por eles e por seu estado? Que já não temos a decência de suspender momentaneamente nossa auto-indulgência até que o cadáver seja removido da praia? Que perdemos uma forma fundamental de respeito?

Testemunhei a mesma manifestação de indiferença na Índia, em Varanasi, nas margens do rio onde a madeira é empilhada em volta dos cadáveres, para cremá-los e depois atirar as cinzas à água. As pessoas perambulam distraidamente por esse lugar. Assistem aos efeitos das chamas sobre os corpos, à medida que elas se tornam cada vez mais altas e os sacerdotes atiçam o fogo para mantê-lo eficaz, ou empurram cabeças, braços ou outras partes dos cadáveres, para fazê-los voltar às chamas e ter certeza de que serão queimados. Esses observadores, distraídos, podem estar saboreando um cone de sorvete ou fumando um cigarro, enquanto assistem ao "show".

Assim esses italianos, bem como os indianos, viviam a sua total aceitação da vida e da morte. Estes últimos, talvez por saber que os mortos tiveram muita sorte, pelo privilégio de suas cinzas serem atiradas ao rio sagrado. Quanto aos banhistas, será que estavam tão concentrados em seus próprios prazeres e em fazer valer seu dinheiro, que simplesmente se tornaram incapazes de ligar o fato de um cadáver na praia a algo útil?

Enquanto considerarmos as pessoas coisas, ou corpos intercambiando serviços, e não como seres existentes em redes de conversação para a aceitação e o apoio mútuo, as coisas não mudarão. Ou mudarão para pior.

3. O cultivo dos amigos

A tentativa de escapar aos dilemas do individualismo pode hoje ser vista em uma miríade de diferentes cultos, movimentos, sociedades religiosas etc. Esses grupos existem para tratar seus membros de uma forma muito semelhante. Em síntese, o líder do culto assume toda a responsabilidade de dizer aos seguidores – e com grandes detalhes – tudo o que eles têm de fazer para continuar a ser aceitos como membros. O que se requer é submissão às ordens do líder, e isso pode ser verificado em muitas e diferentes atividades humanas, desde a política e o terrorismo até os cultos secretos. A pessoa deve submergir sua presumível individualidade até o ponto de tornar-se um simples número na rede do culto, religião, movimento político etc.

3.1. Submersão: onde nada é sagrado

O que vemos, portanto, é que as possibilidades de contato com o sagrado se tornam cada vez menores, à medida que tentamos estratégias para evitar os dilemas da falsa presunção do self individual. Essas estratégias se distribuem em três domínios da experiência humana:

Essas três condições asseguram a submersão da "mente", do "espírito" e do corpo da pessoa sob o peso das regras obscurantistas do líder. Nessas condições, não há esperanças de que nos tornemos conscientes do sagrado.

3.2. Condições de emergência

Dessa maneira, suponhamos que seja possível resistir às tentações de escapar aos dilemas socialmente impostos da "individualidade". Nesse caso, teremos de encontrar o viver total na corporeidade de um "self individual", o que é, ao mesmo tempo, uma mentira. Aqui, devemos confrontar duas condições principais de nossa experiência:

a)  em primeiro lugar, a condição de sentir que autodefinição depende dos contrastes alienantes com os outros. Mesmo quando crianças sentimos isso de modo negativo, quando nos vemos pouco diferenciados de nossos irmãos, irmãs, primos e amigos, por um pai zangado ou desapontado. "Por que você não se parece mais com sua imã?", gritam eles, furiosos. Então compreendemos que somos diferentes de nossa irmã de uma forma que nos torna menos desejáveis, menos aceitáveis. Sentimos a enorme lacuna que existe entre "eu" e "minha irmã". Não apenas é impossível fechá-la, mas também verificamos que nossa própria identidade depende de sua manutenção. Qualquer esforço de nossa parte para fazer com que desapareça essa diferença apenas piorará as coisas. Somos acusados de "querer ser diferente/melhor". Nossa irmã é "realmente boa" e estamos apenas "querendo ser bons". É claro que isso não dura muito;

b) em segundo lugar, somos continuamente forçados a desempenhar uma tarefa impossível: tentar equilibrar o investimento que fazemos ao tentar "sentir-nos bem" com o de tentar "mostrar pertinência" ao grupo de que dependemos para existir. Devemos lutar continuamente para agradar aos outros (por exemplo, ao chefe, no trabalho) por medo de perder o emprego e, ao mesmo tempo, tentar encontrar um significado pessoal para o que fazemos. Essa situação muitas vezes se revela impossível, porque constatamos que temos de fazer coisas espantosas para "agradar" aos outros. Quanto mais desequilibrada a proporção self-outro, mais nossas vidas são terríveis pesadelos ou, na melhor das hipóteses, terrivelmente tediosas. E mais insalubremente as vivemos.

3.3. Condições de fusão

As condições pelas quais podemos abordar o sagrado como experiência de fusão com o mundo são, desde os primeiros momentos, estabelecidas na relação corporal mãe-filho. Verden-Zöller faz os seguintes comentários a respeito da capacidade humana para brincar:

 O bebê humano encontra a mãe nas brincadeiras, antes de começar a falar. A mãe humana, contudo, pode encontrar o bebê na não-brincadeira, porque já está na linguagem quando começam as conversações que constituirão o seu filho. Se ela encontra o filho na brincadeira, isto é, em uma relação biológica congruente de aceitação total de sua corporeidade, a criança é vista como tal e sua biologia é confirmada, no fluxo do crescimento corporal e da transformação, em um bebê humano nas interações humanas. Se a mãe humana não brinca com a criança, seja por causa de suas expectativas, desejos, esperanças ou aspirações, ou se seus olhares ou ações não se encontram, a biologia da criança é negada ou não confirmada, no fluxo de seu crescimento corporal e transformação como um bebê humano em interações humanas... Se o desencontro entre o bebê e a mãe se torna sistemático, o crescimento dele é reduzido, e assim surge uma criança incapacitada em vez de uma normal. (p. 18)

Quando a mãe encontra o bebê na brincadeira – em "uma relação biológica de total aceitação de sua corporeidade" – então a criança é vista como tal. Isso significa que ela é confirmada, admitida, reconhecida na integridade e na justeza de sua biologia, desenvolvimento e crescimento, como uma pessoa humana.

4. Abertura para o sagrado e auto-aceitação

A abertura para qualquer experiência positiva de fusão depende em parte de nosso senso de aceitação. Com isso, quero expressar nossa aptidão para aceitar o mundo como ele é, e ao mesmo tempo nossa capacidade de sentir a aceitação de nós mesmos pelo mundo, tal como somos.

As possibilidades de nos mantermos abertos à experiência do sagrado dependem, em parte, dos modos de ser que nos foram proporcionados na relação pré-verbal com nossa mãe quando crianças. Nossa capacidade de abertura para os outros, e de aceitá-los como eles são, depende de nossa habilidade de auto-aceitação, que por sua vez depende de nossa relação inicial com nossos pais. A relação corporal entre a criança e a mãe é uma oportunidade original para estar no sagrado.

Verden-Zöller continua a explicar: 

A aceitação mútua não pode ocorrer como uma forma espontânea e continuada de vida com o outro se não houver auto-aceitação. A auto-aceitação não pode surgir como uma característica da ontogenia da criança, na relação mãe-filho, se esta não fluir em uma aceitação corporal total e mútua, vinculada às interações corporais lúdicas.

(...) A aceitação mútua mãe-criança não pode ocorrer quando a mãe vê o bebê como um futuro adulto, ou quando vive suas interações com ele como se fossem um processo educacional. Ser aceito é ser visto na interação. Não ser visto em uma interação é ser negado. O modo como interagimos uns com os outros é uma questão de emoções, porque nossas emoções especificam a todo instante o domínio de ações nos quais nos encontramos. Em outras palavras, são nossas emoções que especificam nossas ações, não o que fazemos em termos de movimentos ou qualquer espécie de operações corporais.

O desenvolvimento de uma criança é biológico, na medida em que um ser social requer o contato recorrente do corpo da mãe em total aceitação no presente. Mas uma mãe não pode encontrar seu filho no contato corporal de completa aceitação se ela estiver, por causa de sua atitude produtivista, orientada para as conseqüências de suas interações com a criança, e não para o seu filho real no momento presente.

Assim, a aceitação mútua depende da existência da auto-aceitação, que por sua vez depende da espontaneidade de relação corporal mãe-filho, tal como classicamente manifestada no brincar. Tudo depende da interação espontânea da mãe no aqui-e-agora com seu filho. Equivale a evitar o pensamento orientado para a produtividade – seja em relação ao passado, ao futuro ou a ambos. Dessa maneira, a aceitação é definida como o tipo de reação espontânea na qual uma pessoa "é vista". Não ser visto em uma relação é ser negado.

4.1. Não se pode "pilotar" o "self correto"

Já vimos como a falta de aceitação do self se manifesta na automanipulação que leva à cirurgia plástica – a tentativa de esculpir um "self mais aceitável". Mas essa auto-escultura está por definição fadada ao fracasso, porque é uma declaração irreversível de autonegação: "Não aceito a forma de meu nariz, de modo que vou cortar partes dele". Em vez disso, é preciso entender que a auto-aceitação (ou a autonegação) deriva da relação inicial de uma pessoa com seus pais – em especial a mãe. Nenhuma cirurgia mecânica pode substituir esse processo precoce de relacionamento.

A aceitação mútua é obviamente baseada no sentimento anterior de auto-aceitação que conseguimos alcançar. Quanto mais aceitamos a nós mesmos mais fácil será sermos aceitos pelos outros. Mesmo quando eles nos aceitam, podemos não aceitar essa aceitação, se não nos sentimos verdadeiramente "aceitáveis".

Assim, devemos voltar um passo atrás para compreender a auto-aceitação e a autonegação. Nas interações corporais mãe-filho, é possível perceber com facilidade a progressão da primeira. Ela prossegue até o ponto em que a relação se manifesta por meio de interações espontâneas no lúdico. Nesse momento a criança é "vista" pela mãe e surge o fenômeno da aceitação total. Quando essa progressão não ocorre, gera-se a recusa ou a negação. Deve ter sido isso o que Carl Rogers queria dizer, quando descreveu a idéia de respeito positivo incondicional

Na emergência do nosso self individual, podemos, na melhor das hipóteses, tomar consciência do sagrado por meio de sua falta no centro de nossas experiências. Podemos perceber o quão amputados, separados e solitários nos sentimos em nossas vidas.

Assim como a cirurgia plástica não é um mecanismo de geração de auto-aceitação, a psicoterapia também não o é. Só consegue sê-lo quando é orientada para acompanhar de perto os sentimentos inerentes à experiência de vida de uma pessoa. Se só é possível começar a mudar a partir do ponto em que estamos num dado momento, o entendimento do projeto de vida de uma pessoa é um marco inicial indispensável.

4.2. Nem mecanicismo nem sobrenaturalismo

A psicologia dos construtos pessoais foi especificamente criada, em 1955, para ultrapassar o mecanicismo do behaviorismo e as mistificações do freudismo, que eram as abordagens dominantes na primeira metade deste século. Kelly desenvolveu uma linguagem e um modelo destinados a superar também o dualismo mente versus corpo, propondo sua noção de "construto", ou síntese, que descreve a experiência da pessoa total e não apenas a parte cognitiva ou emocional. Segundo ele, tais divisões não existem. Construir envolve a ação da pessoa inteira, e não um atos "cognitivos" ou "afetivos". Não existe algo "cognitivo" nem "afetivo" em nossas interpretações. É a pessoa total que constrói, não apenas seu cérebro ou intestinos. Trata-se do esforço da busca de sentido pela totalidade. O termo "construtivo" visa expressar a superação da dicotomia "fragmentário" versus "holístico".

Do mesmo modo, Bateson dizia claramente que sua noção de sagrado visava evitar as simplificações mecanicistas e também os modos "sobrenaturais" de explicação:

Não sei o que fazer, exceto tornar muito claras as opiniões que sustento sobre o sobrenatural, por um lado, e sobre o mecânico, por outro. Simplificando, devo dizer que desprezo e temo os dois extremos de opinião. Acredito que ambos sejam epistemologicamente ingênuos, epistemologicamente errados e politicamente perigosos. São também perigosos para aquilo que podemos chamar, vagamente, de saúde mental. (Bateson, pp. 52-53)

Nesse estágio, podemos supor que alguns ingredientes iniciais do sagrado incluem a consciência respeitosa dos limites humanos para o conhecimento e para a criação. É preciso reconhecer as inevitáveis lacunas da compreensão humana, a inevitabilidade dos escorregos e a não-redutibilidade do domínio das explicações ao âmbito da experiência, como faria Maturana. É também importante reconhecer a necessidade de recomeçar sempre do zero, com uma atitude de benevolência para com os erros.

O que é preciso para lidar de maneiras mais complexas com os relacionamentos? Isso requer modos de ver que afirmam a nossa própria complexidade e a complexidade sistêmica dos outros. Esses modos propõem a possibilidade de que possamos constituir juntos um sistema inclusivo, uma rede mental comum da qual participem elementos daquilo que é inevitavelmente misterioso. Tal percepção, tanto de nós próprios quanto dos outros, é a afirmação do sagrado. (Bateson, Angels Fear, p. 176)

A terapia deve também ser vista como uma abordagem à complexidade sistêmica da vida das pessoas, e não como algo destinado a "curá-las de si mesmas". Deve buscar suas implicações peculiares para a mudança pessoal num futuro próximo. Para ser construtiva, ela precisa evitar as tentações humanas de mecanizar, literalizar e mistificar. Bateson criticava o movimento de terapia familiar americano justamente por causa desses erros. Por exemplo, em seu diálogo pai-filha:

Pai – Há ainda outro problema para Angels Fear: a questão do mau uso das idéias. Os engenheiros se apoderaram delas. Olhe para esse espantoso negócio que é a terapia familiar, com os terapeutas fazendo "intervenções paradoxais" para mudar pessoas ou famílias, ou contando duplos vínculos3. Duplos vínculos não podem ser contados.

Filha – Não. Sei disso, porque os duplos vínculos têm a ver com a estrutura total do contexto. Uma situação de duplo vínculo, em uma sessão de terapia, é a ponta de um iceberg cuja estrutura básica é a totalidade da vida familiar. Mas você não pode impedir as pessoas de contarem seus duplos vínculos. Diluir processos em entidades é fundamental para a percepção humana. Pode ser que corrigir isso faça parte da utilidade da religião. Mas você se tornou muito rabugento a esse respeito, e um tanto detestável para as pessoas que o admiram tão intensamente. (Bateson, Angels Fear)

De todo modo, o tipo de terapia familiar abominada por Bateson é o que pode contribuir para uma maior "coisificação" da existência individual e familiar.

4.3. As psicologias manipuladoras: poder e controle

George Kelly também estava alerta para ajudar seus alunos e outros a evitar a armadilha do propósito consciente, em relação à "aplicação" de sua psicologia dos construtos pessoais. É fácil resvalar para uma psicologia manipuladora, mesmo quando se está tentando fazer o oposto. Se nossa atenção se desviar do ser da pessoa com quem estamos para outra versão dessa pessoa — seja ela imaginada, implicada, desejada, ou projetada—, teremos modificado a natureza de nosso relacionamento na direção da manipulação. Em seus escritos, Kelly comenta:

Prometi-lhe que este livro não seria um manual do tipo "como fazer", para terapeutas que querem que as pessoas se comportem bem, sem ter de penetrar na complicada questão que é entendê-las. (Kelly, p. 187)

Quanto mais falarmos sobre a abordagem manipuladora — que inclui intenções conscientes estreitas e focalizadas —, maior será a distância a que ficaremos de nossa própria globalidade e mais cegos nos tornaremos para a sacralidade do todo. Esta corresponde à visão da totalidade complexa, o entendimento da auto-regulação, da autoprodução, da autocorreção, da automanutenção e da autocura. Na medida em que uma psicoterapia propõe esses aspectos como marcas da relação terapêutica, poderemos dizer que estamos tocando partes do sagrado por meio do nosso trabalho.

Segundo a terapia de construtos pessoais, o terapeuta deve produzir os processos autoconstrutivos sistêmicos da pessoa. Isso é necessário para compreender como ela chegou a ter problemas, e também para ajudar na construção conjunta de alternativas viáveis e novos modos de auto-construção sistêmica. Tudo fica mais fácil quando é realizado na totalidade da família, aqui definida como um sistema conversacional no qual podem surgir problemas. O processo psicoterapêutico consiste em reconstruir a cultura familiar. Trata-se de um empreendimento politicamente desafiador, porque se opõe às regras que manipulam as pessoas e aos mecanismos sociais predominantes.

Bateson insistia em que qualquer que sejam as outras características definidoras do sagrado, nossa atitude diante dele deveria ser marcada pelo fato de sermos capazes de questionar abertamente seja o que for que ele pareça ser, e ter a capacidade de receber humildemente as respostas. Essas atitudes – questionar e ser humilde – são duas das características importantes e definidoras do construtivismo, que diz que:

a) não existe uma resposta final, ou uma conclusão que possa ser tirada a respeito das questões humanas;

b) ninguém pode conhecer a história inteira. Por isso, ninguém pode aspirar à arrogância, em vez de ser humilde diante da ignorância.

Dizendo de outra maneira, ofereço aqui a "prece construtivista", que seria algo assim:

4.4. A prece construtivista

Nenhuma pessoa pode saber tudo.

Nenhuma versão dos acontecimentos pode ser completa.

Nenhuma compreensão da realidade pode ser a versão final do porvir humano.

Qualquer coisa conhecida agora pode tornar-se irrelevante no futuro.

Qualquer coisa que agora é útil pode tornar-se redundante.

Qualquer coisa que agora parece definitiva pode revelar-se insuficiente depois.

Tudo o que chegarmos a saber jamais esgotará o âmbito do desconhecido.

Tudo o que pensamos saber serve apenas para obscurecer a ignorância do que desconhecemos.

Tudo aquilo em que cremos nega necessariamente mundos alternativos.

5. Fusão, emergência e submersão

Neste ponto, posso oferecer um mapa para que nos localizemos em relação ao agrado, em termos de nossa posição nestes três domínios: fusão, emergência e submersão:

Fusão – com a unidade cósmica maior: bem-aventurança cósmica.

Emergência – da ligação com o sistema maior: desespero existencial.

Submersão – nossa percepção da existência do sistema maior: ignorância profunda).

5.1. A rede: oito modos de sentir o sagrado

O sentimento do sagrado

Nesse mapa há oito modos de sentir o sagrado, que estão reunidos em três grupos. O primeiro é o fenômeno da fusão – pelo qual temos oportunidade de sentir a nós mesmos em comunhão com a totalidade maior da qual somos parte. O segundo é a emergência, que descreve os processos pelos quais somos postos à parte do todo, ao ser vistos como indivíduos separados. Aqui sentimos o sagrado como algo que falta às nossas vidas. Em terceiro lugar há a submersão, na qual nossa natureza sistêmica mergulha sob as ideologias dominantes da rede em que temos de existir. Aqui, o sagrado é sentido em termos do que está fundamentalmente errado na forma como vivemos em comunidade com os outros. É o profundo mal-estar cultural de uma população que está sendo desviada de seu caminho por não questionar seu sistema de valores.

Três sinais de fusão: sensações

1. Sentimento de que há algo maior do que o self individual no Universo: consciência do espanto. Nessa definição, sagrado significa que aquilo que sentimos de modo recorrente deve existir como um sistema ou meio ambiente. É um contexto mais amplo, no qual todos estamos contidos ou inseridos. Aqui as emoções colaterais são reverência, ser esmagado etc. O sagrado surge em situações nas quais sentimos que devemos tentar ir além de nosso âmbito, estender-nos na direção do que senti-mos estar presente em nossa experiência. Ao superar o domínio da linguagem, conjuntamente inferimos e implicamos a existência de algo que não pode ser dito. Também sabemos que tal sentimento pode permanecer para sempre incognoscível, no quadro da consciência passível de ser expressa por palavras.

2. A seguir, vem o sentimento de fazer parte da totalidade cósmica maior: pertencer, encaixar-se – sentir-se "em casa" no Universo. Aqui o sagrado é a sensação de unidade, unificação ou identificação, que podemos experienciar ao viver no Universo – a bem-aventurança cósmica. As emoções colaterais são o contentamento, a profunda satisfação, a tranqüilidade etc.

3. Nossa percepção da inevitabilidade do colapso das antecipações humanas, dos planos e sistemas humanos, leva-nos a perceber que existe sempre mais do que o olho alcança, mesmo em nossas previsões simples. Nossa vivência de surpresas, conseqüências não desejadas, e os efeitos freqüentemente desastrosos e previstos de nossas ações, podem oferecer-nos um vislumbre da complexidade de mundo em que vivemos. Somos continuamente advertidos de nossa cegueira básica quanto ao futuro, e da necessidade de reexaminar sempre nossa experiência à luz dos resultados inesperados de nossos esforços. As emoções colaterais aqui são a incerteza, a ansiedade, a ameaça, o medo, a confusão, o caos, o pânico etc. O grau em que podemos realmente aprender pela experiência, e modificar o que temos como certo, é uma medida de nossa capacidade de detectar a atuação do sagrado, por trás de nossos encontros recorrentes com o desapontamento e com o fracasso. Precisamos desenvolver uma atitude de benevolência para com os erros. Se tivermos sorte, poderemos usar essas experiências para avaliar a atuação do que ocorre num mundo que está além da análise redutivista.

Dois sinais de emergência: privações

1. A base aqui é nossa sensação de estar separados ou amputados do resto da humanidade, por causa da individualidade que nos foi dada: sofrimento, distanciamento, solidão. Com freqüência, soma-se a necessidade de ser competitivos: "Eu sou diferente e melhor do que você". A competitividade implica necessariamente negar os outros. Essa definição diz que o sentimento do sagrado surge de sua ausência em nossas vidas individuais. Na medida em que somos individualmente distintos dos outros — e em virtude dessa distinção —, vemo-nos abandonados na pele da personalidade que nos foi dada. Assim, estamos muito distantes de nos sentir "juntos com" o mundo. Aqui a individualidade é vista como uma ficção útil das sociedades ocidentais, mais interessadas na produção e na intencionalidade do que em "humanizar" os seres humanos. As emoções colaterais são a solidão, o distanciamento e a alienação. Há uma sensação de grande carência, de estar à parte da totalidade do mundo vivido.

2. Aqui há a percepção da luta para conservar o self individual e, ao mesmo tempo, a de ter de conformar-se com as expectativas sociais: conservar a pertinência, o valor de mercado, as capacidades produtivas. A luta para perceber a individualidade como uma disposição contra o fato de sermos arremessados, como dentes de engrenagem, na máquina dos outros, acentua nosso sentimento de alienação de um mundo enquadrado em culturas comerciais e capitalistas. As emoções colaterais aqui são a de estar sob pressão, a raiva, o sentir-se explorado, o sentir-se enganado, comprometido, inautêntico etc.

Ao entrar nessa luta, acabamos sentindo a insatisfação implícita diante da incompatibilidade das tarefas gêmeas de autoconservação e conservação do ajustamento. Quanto mais a sociedade se baseia na crença do individualismo e, ao mesmo tempo, força os indivíduos a comprometer esse individualismo de modo a se enquadrarem no sistema, como engrenagens de máquina, mais as pessoas sofrem com esse paradoxo.

Três sinais de submersão: negações

1. Tentamos resolver os conflitos impossíveis dos itens 1 e 2 do parágrafo anterior mergulhando no sentimento de pertencer a nossas redes locais de conversações: "Ser é ser com os outros". "Não balance o barco". "Não perca o seu lugar no grupo". Na medida em que essas redes requerem um alto nível de concordância com as regras culturais dominantes, temos poucas oportunidades de ser livres para sentir o sagrado, a não ser entrando em contato com a sensação de mal-estar que se origina do convívio com essas estruturas. As emoções colaterais aqui são o ressentimento diante da manipulação mútua, o abuso, a falta de respeito e de aceitação – junto com a impossibilidade de mostrar-se verdadeiramente aos outros por medo de ser excomungado, isto é, de ser excluído da rede de comunicações.

2. Aqui marchamos contra os limites permitidos das ações humanas – os limites de nossas possibilidades de agir. Nossa percepção diz que há sempre limites para aquilo que nos é permitido fazer. Se tomarmos isso como um desafio para ultrapassar essas fronteiras, estaremos sempre em uma pequena rede de ação racional, que freqüentemente não consegue lidar muito bem com os desafios da vida. Dessa forma, as emoções colaterais aqui são a frustração, o sentimento de impotência etc. Sentimo-nos incapazes de fazer algo porque "não é permitido". Quanto mais estreitos são esses limites, mais sentimos que estamos vivendo em uma prisão, na qual é impossível realizar nossos desejos pessoais, nossos projetos ou nossos modos preferidos de vida. Podemos apenas sonhar com aquilo que está fora das paredes dessa prisão.

3. Aqui tornamo-nos conscientes dos limites permitidos ao nosso entendimento. Só podemos pensar, ou buscar sentido em nossa vida, dentro de um dado quadro ideológico. Outra definição prototípica da situação humana diz que somos sempre apanhados no fosso entre nosso âmbito de experiências e as explicações disponíveis para elas. São duas dimensões fundamentais, que jamais seremos capazes de juntar. Nossa experiência recorrente desse fosso é o principal ponto de partida para que nos tornemos conscientes do sagrado. Desse ponto de vista, o sagrado poderia ser definido como equivalente ao "real" lacaniano – aquilo que sobra depois que se esgotam nossos melhores esforços explicativos e descritivos. Assim, o sagrado é o sentimento do real que nos escapa de modo contínuo e inevitável. Aqui as emoções colaterais são a confusão, a frustração intelectual, a raiva etc.

Nossa sensação de camisa de força mental é criada pela dominância dos valores locais, das ideologias, das religiões etc. Sentir que há muito mais a ser pensado, que deve haver caminhos melhores de descrever e fazer contato com nossa experiência, leva as pessoas a buscar modos alternativos. Bater contra esse teto cognitivo cultural, que nos diz como devemos entender os acontecimentos, é outra forma de delimitar as coações que nos separam do sagrado.

6. Ah! Eis o sagrado!

Neste verão, eu estava em uma praia quase deserta da Sardenha. À minha frente havia uma menininha, que aos poucos se dava conta de que podia andar. Ao ser posta de pé, lançou-se para diante e cambaleou cinco ou seis passos antes de perder o ímpeto e cair. Estava totalmente absorvida com essa nova descoberta do livre movimento.

Continuou por vários minutos com esse ciclo de levantar-se, seguir em frente, dar alguns passos e cair. Num dado instante, sua atenção foi atraída pelas marcas que suas mãos haviam deixado na areia. Foi mais uma descoberta! Percebeu que ao tocar a areia com as mãos, podia fazer nela toda sorte de fascinantes buracos e entalhes. Enquanto se ocupava com essa nova descoberta, as ondas alcançaram o lugar onde estava sentada, lavaram a areia e apagaram todas as marcas.

Mais uma descoberta! O que ela acabara de testemunhar? Repetiu toda a seqüência: correr, cair, marcar a areia com as mãos – e por fim observar a água vir e desfazer tudo. Que espantoso! Em seguida, correu mais alguns passos e cavou novos buracos. Mais uma vez, a água apagou as marcas que ela fizera no mundo. Correu de volta ao ponto onde estivera antes, fez mais buracos, viu a água apagá-los. E agora corria de um lado para outro entre os pontos que estivera marcando – como se estivesse tentando evitar que algumas das marcas fossem desfeitas pela água.

Continuou com esse experimento por vários minutos. E, mais uma vez, algo de novo! Um pedaço de alga fora deixado para trás pelas ondas. Ela o tomou, olhou para suas cores brilhantes, cintilantes, agitou-o de um lado para outro capturando os reflexos do sol. Era tão emocionante! Voltou correndo para junto de seus pais. Mostrou sua descoberta, gritando de alegria, balançando-a contra o sol – mas parece que o pai já havia visto uma alga, porque a tomou e atirou-a na areia.

Depois ergueu a filha, colocou-a em sua nova bóia de borracha colorida e empurrou-a para a água. Logo que ele parou de empurrar ela virou o curso da bóia em direção à praia, para onde voltou com muito esforço. Ao chegar à areia, livrou-se da bóia e correu para o ponto onde a alga havia sido jogada. Pegou-a de volta e dessa vez foi até sua mãe, para partilhar com ela o que descobrira. Dessa vez a mãe a levou a sério e juntou-se a ela na partilha da espantosa descoberta. Mais tarde, perguntei aos pais a idade da menina e eles me disseram: apenas 13 meses.

Conto essa história porque quero deixar aqui uma imagem da atuação do sagrado. Aquela menininha estava em um estado de sacralidade, era capaz de viver espontaneamente o seu espanto de ser-no-mundo, de descobrir a assombrosa conexão entre ela própria e tudo o que a cercava. Todos nós já tivemos essa aptidão para viver no sagrado, antes que a linguagem nos apanhasse e nos tornasse humanos com propósitos conscientes. Depois disso, tornamo-nos cegos para a atuação do sagrado em nosso próprio ser. Se tivermos sorte, conservaremos a capacidade de ficar ocasionalmente espantados, assombrados, reverenciando a totalidade do sistema no qual nossas vidas estão inseridas.

A menininha, que ainda não entrara na linguagem, era livre para estar espontaneamente no sagrado. Nós, que estamos do outro lado da barreira lingüística, já não somos livres para fazer isso – a menos que tenhamos muita sorte e nos percebamos assombrados diante de algum fenômeno da natureza. Devemos lutar até o impossível para nos livrar das amarras da linguagem, de modo a ser capazes de sentir a complexidade sistêmica de nossas vidas.

Nossa orientação cultural atual de "criar produtos" nos torna cegos para o aqui-e-agora de nossa interação com os outros. Por isso nos é difícil viver o presente de nossos relacionamentos – o que inclui a relação mãe-criança nas situações lúdicas. É bem difícil, para muitas pessoas, permanecer na totalidade de uma aceitação mútua e sem expectativas.

Vale a pena destacar como essa perspectiva ajuda a definir o que Kelly quis dizer com sua psicologia das compreensões. Trata-se de uma forma de viver em relacionamento com os outros, de tal modo que sejamos capazes de manter nossa "presença pessoal" em um fluxo de "momento presente". Ou, em outras palavras, estar juntos em um relacionamento de presença recíproca. O que a psicologia das compreensões implica, pois, é que estamos em relação com o outro em uma série de momentos presentes, de tal maneira que não atuamos sob a intenção tácita ou explícita de "fazer algo" a outra pessoa, com ou para ela. Estamos simplesmente e pessoalmente presentes.

Concluo com uma citação final de Wittgenstein:  

O homem foi impelido contra os limites da linguagem. Pensemos, por exemplo, no assombro que é a existência de qualquer coisa. Esse assombro não pode ser expresso em forma de pergunta e não há resposta para ele. Tudo o que dissermos deve, a priori, ser apenas um absurdo. No entanto, atiramo-nos contra os limites da linguagem. Kierkegaard também reconheceu esse impulso, e até o descreveu do mesmo modo: como um impulso contra o paradoxo. Esse investir contra os limites da linguagem é a ética. Considero muito importante pôr um fim a toda tagarelice a respeito da ética – se há conhecimento nela, se o Bem pode ser definido etc. Na ética, o indivíduo tenta constantemente dizer algo que não interessa nem pode jamais interessar à essência do assunto. É certo, a priori, que seja qual for a definição que possamos dar ao Bem, será sempre um equívoco supor que tal formulação corresponda ao que realmente queremos dizer [Moore]. Mas a tendência, o impulso, aponta para algo. (pp. 12-13)


Notas do editor

1. Self – Neste ensaio, o autor emprega o termo self no mesmo sentido que o budismo usa "self menor" – o ego. Trata-se da consciência que uma pessoa tem de sua mente e corpo. Relaciona-se com as limitações do indivíduo e com sua pretensão de ser separado do resto do mundo.

2. Construto – para os psicólogos construtivistas, aquilo que é psicologicamente construído (sintetizado) no decurso da experiência cotidiana.

3. Duplo vínculo – Situação muito freqüente em nossas vidas, na qual nos vemos diante de alternativas simultâneas e contraditórias. Ocorre, por exemplo, quando os pais dizem a uma criança: "Nós gostamos muito de você mas vamos surrá-lo, porque queremos que você se comporte bem para que possamos continuar a amá-lo". Bateson observou que muitos adultos esquizofrênicos tinham história de freqüentes situações de duplo vínculo na infância.


Referências bibliográficas

Gregory Bateson (1967). They threw God out of the garden. Letters from Gregory Bateson to Philip Wylie and Warren McCulloch (Ed. Rodney Donaldson). Co-Evolution Quarterly. No. 36, Winter 1982, pp. 62-67.

Gregory Bateson & Mary Catherine Bateson (1988). Angels fear – an investigation into the nature and meaning of the sacred. London, Rider.

George Kelly (1969). The language of hypothesis. Em Maher (Ed.). Clinical psychology and personality. Wiley.

Joshu Sasaki Roshi (1983). Where is the self? Em Awakening the heart. Ed. John Welwood, New Science Library, Shambhala, Boston & London.

David Smail (1993). The origin of unhappiness: a new understanding of personal distress. Harper Collins, London.

Gerda Verden-Zöller (1989). Mother-child play: the biological foundation of self and social consciousness. Unpublished manuscript.

John Welwood (1983). Vulnerability and power in the therapeutic process. Em Awakening the heart. Ed. John Welwood, New Science Library, Shambhala, Boston & London.

Ludwig Wittgenstein (1965). Wittgenstein’s lectures on ethics. Philosophic review, Vol LXXIV, no. 1, Jan. (Lecture delivered Sept. 1929 at Cambridge).


Vincent Kenny é psicoterapeuta e consultor internacional, com atuação em vários países da Europa.


Nota — Este artigo apareceu no número 72 da publicação de ensaios Thot, da Associação Palas Athena, em São Paulo, Brasil. Para entrar em contato com a Palas Athena, clique: www.palasathena.org


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